Parte 2: Yin Yang para compreender o mundo e o avanço tecnológico

This entry is part 2 of 2 in the series Série "O ideal feminino e a Computação"

Não é novidade o quanto o feminino é reprimido em favor de características masculinas no mercado de trabalho, inclusive na Computação. Mulheres e homens devem ser competitivos, racionais, ter metas com alto desempenho, de preferência, expandindo o crescimento das iniciativas e organizações nas quais estão inseridos. Virtudes do ideal masculino.

O ideal masculino em si não é o problema. O problema está no excesso de masculino e na despriorização  – ou quase ausência –  do ideal feminino no que criamos, desenvolvemos e participamos.

O desequilíbrio entre os ideais feminino e masculino relaciona-se diretamente com problemas que vivemos no planeta: miséria, fome, estresse excessivo nas grandes cidades, consumo e produção irresponsáveis, poluição e exploração do trabalho.

E pensando especificamente em TI, na era digital, as ideias, organizações e sistemas que criamos têm grande influência nos caminhos que a humanidade está trilhando.  Estamos construindo um caminho de equilíbrio de ideais através da tecnologia? O que é o “Ideal Feminino na Computação”?

Esse foi o tema do meu keynote no Encontro Nacional das Mulheres em Tecnologia, em 2016 e que discutiremos aqui na série.

Definindo equilíbrio e os ideais feminino (Yin) e masculino (Yang)

Na tradição chinesa milenar do Tao, a totalidade do universo e da natureza manifesta-se como o equilíbrio harmonioso e dinâmico entre energias de dois pólos opostos: Yin e Yang.

Yin é consolidação, reação, contração. Yang é impulso, ação, dilatação. Se o ritmo de compasso entre as energias é harmônico, o ponto de equilíbrio se mantém.

A dualidade entre pólos pode ser percebida diariamente em nossas vidas: céu e terra, viver e morrer, inspirar e expirar, movimentar e parar, feminino e masculino.

No vídeo sobre Ideal Feminino, a filósofa Lúcia Helena Galvão explica que:

essas forças, quando se complementam de forma perfeita, com harmonia por oposição, geram velocidade, movimento.”

E movimento é fundamental para os fenômenos da natureza, inclusive para a evolução humana.

Nenhuma força (masculina ou feminina) é melhor que a outra; ambas são necessárias.

Por exemplo, em uma escada há o vetor vertical de subida (Yang) e o vetor horizontal de consolidação (Yin). Ambos são necessários para que a escada exista e nos leve de um patamar a outro, o movimento.

James Kemp - Bansbury, United Kindom - via Unsplash

James Kemp – Bansbury, United Kindom – via Unsplash

Já na evolução humana, se pudéssemos visualizar as forças Yin e Yang em equilíbrio, seria algo parecido com uma espiral:

o centro da espiral é o Yin, guardião do sentido, do propósito, energia que tende a ir para o centro, e o giro é o Yang, expansão, energia que se afasta do centro.

Espiral

Art Zone – via Pixabay

As virtudes femininas e masculinas

Veja quais são as principais virtudes dos ideais feminino (Yin) e masculino (Yang), opostos que em equilíbrio geram harmonia. É possível ver como as virtudes Yang ainda dominam o modo que vivemos:

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Desequilíbrio entre Feminino (Yin) e Masculino (Yang) na prática

No desequilíbrio, se uma das energias está em excesso, a outra estará em deficiência.  Como isso acontece na prática?

A exemplo da psique humana, quando há excesso de energia Yang, podemos nos tornar:

  • raivosos, explosivos, agressores;
  • desconectados com o corpo;
  • ansiosos, impacientes, rígidos;
  • incapazes de escutar.

Se há excesso de Yin, teremos:

  • dificuldade em tomar decisões;
  • pouco movimento;
  • dependência em excesso;
  • estados de melancolia e depressão.

Desequilíbrio na sociedade e no planeta: a ausência da virtude feminina

Os pólos feminino e masculino têm qualidades e defeitos, entretanto as virtudes femininas têm sido menosprezadas, ao longo do tempo. Apenas seus defeitos são valorizados pela sociedade e tidos como algo a ser reprimido. O entendimento – não natural – é que o feminino não tem virtudes essenciais para o planeta.

Porque nos tornamos excessivamente ambiciosos (excesso de Yang), não sabemos parar, pois não sabemos onde queremos chegar: o propósito (Yin). Nos tornarmos predadores. Não respeitamos a própria natureza, esquecendo-se que também somos parte dela!

Hoje, presenciamos a realidade de que esse excesso de expansão voltou-se contra a própria humanidade. O planeta está à beira de um colapso e temos enormes desafios como o de  produzir alimentos para toda a população, acabar com a pobreza, cuidar da água e do meio ambiente.

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Photo credit: Juanlu Sánchez via Foter.com / CC BY-NC-SA

Amazon - Brazil, 2011. ©Neil Palmer/CIAT

Amazon – Brazil, 2011.
©Neil Palmer/CIAT

Sem o feminino, em nome do quê expandimos?

Dominamos o mundo, mas perdemos a nós mesmos, perdemos o contato com o nosso centro, com o sentido. Nosso comportamento caiu na mecanicidade. O que era para ser belo e harmonioso, tornou-se fragmentado e desequilibrado.

Como pontuou Werner Mercker, as ações mecânicas estão focadas em resultados rápidos, despreocupadas com as consequências destrutivas a longo prazo, pois estão centradas, egoicamente, no sucesso pessoal.

Sem a presença da virtude feminina, em nome do quê expandimos? Será que assim somos  mais felizes?

O Feminino e o Masculino da sociedade industrial e da sociedade hiperconectada

O pensamento mecanicista, cartesiano, ou analítico, resolve os problemas através do reducionismo, onde o objeto de estudo pode ser dividido em partes. Com o entendimento da parte, entende-se o todo, uma virtude Yang.

Esse pensamento foi mainstream na era industrial, pois o ambiente de negócios não mudava tão rapidamente e os países e organizações eram isolados.

Muitas práticas, sejam na ciência ou na gestão, foram, e ainda são, influenciadas por essa forma de enxergar o mundo. Elas trazem as ideias de ordem, alta eficiência, hierarquia e controle por meio do conhecimento de causa e efeito.

Mas, em áreas como a Biologia, Psicologia, Economia e Sociologia, a abordagem mecanicista gera resultados muito limitados. Isso porque essas ciências tentam explicar fenômenos complexos (ou sistemas complexos), repletos de relações que ainda não entendemos.

Fenômenos na natureza, no nosso corpo, ou mesmo uma mudança que você esteja tentando realizar na família são exemplos de sistemas complexos.

Imagine uma organização do século 21, conectada, tecnológica, ágil e inovadora. Ela é um verdadeiro sistema complexo.

Agora, imagine essa mesma organização com todos os habitantes do planeta conectados à Internet. Esta é a nossa sociedade online global: hiperconectada e complexa.

Via paragkhanna.com

Tente descrever ou prever o que vai acontecer nessa teia de relações através do pensamento mecanicista. Você verá que é impossível, são variáveis demais e muitas completamente desconhecidas. Não dá para dividir por partes e somar os resultados.

O todo é maior que a soma das partes, como disse o filósofo Aristóteles.

Como buscar equilíbrio em um mundo tão complexo?

Independente da globalização ou da Internet, é preciso aceitar que a natureza e a vida humana são complexas.

Por isso, precisamos buscar uma forma de compreensão mais ampla e efetiva que o pensamento linear, de controle e causa-efeito. Só assim teremos um pouco mais de entendimento do que acontece conosco e ao nosso redor, essencial para o equilíbrio na vida.

É aí que entra o conhecimento sobre sistemas complexos, que vamos abordar nos próximos artigos da série. Lidar com complexidade, não-linearidade e holismo são virtudes femininas.

Por enquanto, só é preciso entender que como indivíduos, organizações e sociedade, nossas ações ainda contêm muitas propriedades do mecanicismo, pois seguimos expandindo sem limite e sem motivo.

O papel do feminino em um futuro de equilíbrio e tecnologia

Para Jytte Nhanenge, autora do livro Ecofeminism: Towards Integrating the Concerns of Women, Poor People, and Nature into Development, a tecnologia, hoje, prioriza as forças Yang sobre as Yin. A consequência é o foco nos objetivos de lucro econômico acima do social e do bem-estar.

E no futuro?

Bem, o futuro já chegou para nós, cientistas da Computação. Já estamos em plena Era Digital, a era da busca incessante pela inovação. E a Computação/Tecnologia tem sido chave para essa revolução econômica, social e cultural. Ela possibilita modelos de negócio disruptivos, como os do Uber, SnapChat e AirBnB.

Pergunto: qual o nosso propósito na Era Digital?

Com um excesso de Yang, a tecnologia pode ser – e é! –  facilmente usada como mecanismo de manutenção do desequilíbrio que já estava ocorrendo. Não é à toa que vemos as grandes corporações cada vez mais consolidadas e capazes de ditar as regras em escala global. Regras de expansão, em geral.

Por exemplo, Google e Facebook controlam 85% do mercado de propaganda digital americano e, com isso, são as mais capazes de determinar tendências, comprar competidores e concentrar riqueza.

Por isso, tecnologistas, precisamos questionar! Precisamos de um propósito para buscar o equilíbrio: o feminino da humanidade e de cada um de nós. Também precisamos de formas novas de pensar que permitam entender um pouco mais da totalidade, por isso investigar sistemas complexos.

Em nome do quê estamos desenvolvendo tecnologia? Qual o propósito final? Estamos usando nosso conhecimento e as ferramentas computacionais para servir um objetivo de equilíbrio?

Referências adicionais

Fronteiras do Pensamento – Edgar Morin

Mia Couto – Repensar o pensamento

Thinking in Systems: A Primer

Se estiver afiado no inglês, veja:

Peter Senge: “Systems Thinking for a Better World” – Aalto Systems Forum 2014

Complexity Science: 3 Systems Thinking

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Claudia Melo

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